quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O choro de uma noite

Lembro-me bem do dia da minha conversão. Deus desejava me alcançar e neste processo começou muitos anos antes a fazê-lo: desde os tempos da igreja católica. Foi Ele quem me disse NÃO de forma inconfundível quando eu quis entrar para o seminário para ser padre. Confesso que não entendi a resposta do Senhor. Como Ele poderia dizer não ao meu coração sincero e ingênuo? Como dizer não a alguém casto que decidiu tornar-se eunuco por amor a Cristo? Definitivamente Deus me decepcionava.
Mas os anos passaram (eles sempre passam) e, hoje, tenho família, filhos e uma vida com Deus. Hoje, estou no seminário, mas não para ser padre ou casto por amor a Cristo. Hoje, olho para traz e percebo que Deus tinha um outro plano o qual eu não entendia.

Atualmente é muito comum confundirmos a soberania de Deus com a permissividade de Deus. Sim, Deus permite muitas coisas, entre as quais o pecado. Mas isso não significa que essa seja a Sua vontade. É neste contexto que trago perguntas para este tempo de dor e lágrimas.
Se hoje eu fosse convocado à presença do Senhor, que respostas eu lhe daria? E se Ele me perguntasse: por quê?

Por que você se calou diante da iniquidade? O que eu Lhe diria? Como me justificaria?

Não falo da iniquidade do mundo, mas da nossa. Aquela que estamos presenciando e, de certo modo, participando com as nossas vontades ou com as nossas omissões. O que direi eu ao Senhor quando Ele me perguntar?

Partimos, repartimos, dilapidamos àquilo que o Senhor nos confiou como se essa fosse a vontade Dele. Será mesmo? Será que Deus utiliza os mesmos métodos que os homens? Será que para Ele os fins justificam os meios? Cada um dará conta de si, por isso a pergunta me incomoda tanto. Como Lhe darei conta da minha omissão?

Não, a iniquidade não está somente no mundo está dentro de mim, dentro de nós. Nos tornamos como o religioso que vê o irmão da sua congregação a beira do caminho e muda de direção (Lucas 10.31). E é isso que me incomoda. O que fiz para que isso não acontecesse? Orei, mas o Senhor não me respondeu. E, novamente, eu choro como naquela noite.

Choro por aquilo que o Senhor há de requerer da minha mão (das nossas mãos). Choro porque não consigo sentir paz ao ver o sacrifício de tantos irmãos do passado ser esquecido. Parece-nos tão fácil conjugar o verbo vender! O que nos restará para vender em breve? Talvez nossas almas.

Choro porque percebo que a minha omissão, justificada como passividade, permitiu que essas coisas acontecessem. Acontecessem outra vez, não uma nem duas vezes, mas várias.

Choro porque sei que não tenho nenhuma garantia que o dinheiro da venda se reverterá em benefício para nós, assim como não aconteceu das outras vezes, não uma nem duas vezes, mas várias.

Eu choro!

Um choro de lamento, de injúria, de dor.

Choro com Deus e pergunto-Lhe, por quê? Será que minha oração é errada? Por que, então, não sinto paz? Será que minha oração é egoísta? Então, por que Ele não me corrige? Será que me falta fé? Então, por que tem me forjado?

Choro, sim, choro e peço ao Senhor que eu esteja totalmente errado. Que assim como da primeira vez haja algo muito melhor lá na frente. Que no final do túnel haja uma luz brilhante sob a qual todos os nossos pecados sejam revelados e que neste lugar não se encontre os pecados que agora vejo.

Sim, eu choro ainda mais porque se, de fato, a iniquidade já nos dominou o choro durará mais de uma noite apenas. Também não seria esta a primeira vez na história que o povo que se chama pelo Seu nome se desvia dos Seus caminhos.

Que nunca venha sobre nós a mesma palavra trazida por Ezequiel contra Jerusalém: “...acaso é pequena a tua prostituição?” (Ezequiel 16.20c)

Quão fraco é o teu coração, diz o Senhor DEUS, fazendo tu todas estas coisas, obras de uma meretriz imperiosa! Edificando tu a tua abóbada ao canto de cada caminho, e fazendo o teu lugar alto em cada rua! Nem foste como a meretriz, pois desprezaste a paga; Foste como a mulher adúltera que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos. A todas as meretrizes dão paga, mas tu dás os teus presentes a todos os teus amantes; e lhes dás presentes, para que venham a ti de todas as partes, pelas tuas prostituições. Assim que contigo sucede o contrário das outras mulheres nas tuas prostituições, pois ninguém te procura para prostituição; porque, dando tu a paga, e a ti não sendo dada a paga, fazes o contrário. Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR.” (Ezequiel 16.30-35).

Com temor e tremor peço ao Senhor que eu esteja totalmente e redondamente equivocado, para que meu choro dure apenas uma noite e a alegria venha pela manhã.

sábado, 6 de novembro de 2010

Nossa Granja da Igualdade

Uma paráfrase do conto de George OrwellNuma fazenda os porcos, olhando através da janela, perceberam que os fazendeiros gozavam de conforto as custas do trabalho, do sacrifício e da vida dos animais. Os porcos chamaram a atenção dos demais bichos e considerando a injusta situação deles, propuseram uma greve para o dia seguinte (continua ...)

Líderes deveriam ser capazes de pensar com autonomia e não confiar unicamente em seus representantes. O líder precisa ser capaz de discernir com clareza, ser comprometido com o objetivo e ainda que deva delegar tarefas, antes de tudo, precisa saber que a responsabilidade é sua!

Curiosamente, nós brasileiros temos, em nossa cultura, o hábito de aderimos como esponjas os modelos de outros países, que sequer falam nossa língua.  No entanto, nos esforçamos amargamente para falar a deles.  Isso não é por acaso.  Se por um lado estes países têm demonstrado suas competências, por outro temos que observar o quanto isso lhes custou.

Também não é por acaso que nós brasileiros não temos heróis, nem mesmo nos quadrinhos, a não ser uns poucos caricatos de historietas menos importantes. Nossa idéia está na eterna esperança de que alguém venha nos resgatar, que nos venha nos fazer justiça. Até mesmo nas igrejas é esse o nosso pensamento. 

Como futuros líderes deveríamos, antes de tudo, ser capazes de perceber, discernir e escolher. Perceber o que realmente acontece; discernir entre o que é bom e o que não é; para então, escolher o melhor caminho.

No dia seguinte os fazendeiros não entenderam por que não haviam ovos, nem por que animais não trabalhavam.  Então decidiram tentar saber o motivo do motim com os próprios animais da fazenda....

Para isso, o líder cristão precisa pagar o preço de sua liderança.  Receberá sobre si o ônus e o bônus dos resultados. O líder precisa ser antes de tudo comprometido com os objetivos e não pode, em hipótese nenhuma, abrir mão deles ou pior, não saber para onde vai. Se olhamos para O alvo não nos perdemos, mas temos olhado para a flecha e por isso temos errado. Se percebermos as verdadeiras razões do que se move a nossa volta saberemos facilmente para onde estão indo e quais as suas verdadeiras intenções.

Com “justiça” os porcos foram eleitos os porta-vozes dos bichos para negociar melhores condições de vida. Tinham uma carta de intenções que fora escrita com os animais anteriormente. O item 7 dizia: Todos os animais são iguais.....
Certamente o líder precisa saber delegar, delegar tarefas e não a liderança. A não ser no caso de estar preparando um substituto.  O líder precisa ter como pré-condição a capacidade de ser liderado enquanto está em fase de treinamento.  Precisa saber trabalhar em equipe, mas também precisa assumir o risco de não fazê-lo quando necessário. 

O líder, mesmo em treinamento, precisa discernir quando deve ser conduzido por Moisés e quando assumir o risco de ser Josué.  Mesmo que tenha que se voltar contra a maioria, “democraticamente” falando.  Não confundir insubordinação com atitude, nem submissão com subserviência, ou pior, com omissão, indolência, preguiça, conformismo etc. Não podemos delegar a outros a responsabilidade que é nossa!

Após serem atendidas algumas reinvidicações, os porcos foram eleitos representantes dos bichos para receberem os benefícios. Mas, aos poucos, as coisas foram se moldando....

A questão da liderança salta aos olhos porque temos confundido alguns desses preceitos, inclusive bíblicos, e temos delegado (ou relegado) a outros aquilo que o Senhor nos confiou para fazermos. Porque Ele nos chamou de forma especial para lideramos com discernimento, compromisso e responsabilidade.

O item 7 foi o último a ser “corrigido”: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”. No final, olhando através da janela, os animais felizes viam os porcos sentados à mesa com os fazendeiros.  já não se podia discernir quem eram os homens e quem eram os porcos.

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