quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Alfabetização: sua origem e contexto histórico

Por: Raquel Regina Zmorzenski Valduga Schöninger

Para entendermos a Educação, hoje, e as interfaces com as Novas Tecnologias, precisamos compreender melhor como aconteceu o processo de alfabetização.

É comum pensarmos na alfabetização como o resultado de um período de escolarização, como se essa tivesse nascido junto com a escola. No entanto, a alfabetização é anterior à escolarização.

Conforme Cook-Gumpertz (1991), em um período anterior ao movimento da escolarização, a alfabetização já fazia parte da vida de um número significativo de pessoas, porém o valor atribuído a ela era muito diferente. A alfabetização possuía valor na vida social e na recreação das pessoas, já que a atividade econômica não era seu grande objetivo, pois naquele contexto histórico podia-se viver tranquilamente sem as habilidades de leitura e escrita. A alfabetização não era, a princípio, considerada uma possibilidade de ascensão social. Afinal, eram apenas os nobres que tinham estabilidade social garantida.

A alfabetização do povo foi iniciada pelos religiosos que com o intuito de conquistar mais fiéis utilizavam o catecismo para alfabetizar. No período das reformas religiosas, ocorreu de certa forma uma concorrência entre os reformadores protestantes e católicos pelas escolas primárias, o objetivo era angariar o maior número de fiéis submissos. Assim, o ensino na época, exercido por instituições religiosas, não se preocupava, apenas, em oferecer os rudimentos da leitura e da escrita, oferecia, também, os conteúdos religiosos, instruções morais rígidas, além de pregar o amor pelo trabalho.

Alguns reformadores defendiam que o ensino se desse na língua materna do estudante, fato que, de certa maneira, possibilitaria uma disseminação maior da alfabetização e produziria também a limitação do período de escolarização, já que o latim era pré-requisito para a entrada nos colégios. Essa prática, de ensinar as crianças só na língua materna e não ensinar o latim serviu também como fator de seleção (ou discriminação social), pois era uma prática que acontecia nas escolas primárias frequentadas por pobres. Quer dizer, se por um lado ensinar as crianças na língua materna possibilitou que um número maior delas fosse alfabetizada, por outro lado, sem o latim, elas não chegavam aos colégios.

O ensino de caráter religioso, a princípio, não contava com o apoio dos dirigentes políticos, pois esses viam a alfabetização como uma possibilidade de o povo vir a contestar a ordem vigente. Porém, com os protestos populares do século XVII, que ocorreram em vários locais, atacando as autoridades, provocando uma mudança na posição dos burgueses e nobres, estes começaram a perceber na escolarização para o povo uma possibilidade de controlar essa gente.

No entanto, o dualismo escolar continuava; para os burgueses e nobres uma educação para administrar e, para os integrantes da classe popular, uma educação moralizadora, que tinha como principal objetivo: ensinar o amor ao trabalho, a obrigação da fidelidade ao empregador, ou seja, transmitir aos alunos e alunas pobres alguns conhecimentos apropriados a seu destino de trabalhadores.

De acordo com Varela (1992), inicia nesse período a campanha de domesticação da criança e do jovem pobre. São criadas escolas específicas para corrigir os desvios de educação dos/as filhos/as da pobreza. Cabe ressaltar que as escolas destinadas aos filhos e filhas da nobreza nada tinham a ver com os estabelecimentos de ensino que a população pobre frequentava. Nessas escolas, não eram apenas as atividades e os conteúdos de ensino que eram diferenciados, os castigos e a submissão às ordens também aconteciam de maneira diferente daqueles estabelecidos para a nobreza.

No entanto, no final do século XVIII, início do século XIX, com o crescimento da industrialização, alguns países começaram a optar pela escola gratuita e obrigatória. Nessa nova fase social de urbanização e industrialização, em que a economia deixa de ser agrária e passa a ser em sua grande maioria urbana, o conceito de alfabetização também se transforma.

Nesse novo contexto, segundo Petitat (1994, p.151) “pode-se sustentar que a tecnologia industrial implica conhecimentos dificilmente transmissíveis e aplicáveis sem o recurso da escrita”. Ou seja, o processo de industrialização contribuiu para o aumento da alfabetização em níveis gerais.

Para Cook-Gumperz (op.cit), a escolarização da alfabetização, ou seja, para o povo, num primeiro momento, provocou certo medo nas classes dirigentes. Depois, serviu durante anos como um bom instrumento de produção e reprodução de pessoas educadas para o trabalho, conforme mencionamos anteriormente. A classe dominante que, historicamente, tem encontrado um jeito de reverter a situação em seu benefício, deu continuidade ao processo de escolarização, iniciado pelos reformadores protestantes e católicos em um bom espaço pra preparar mão de obra para as suas indústrias e ensinar aos indivíduos os valores morais e a serem bons operários.

O que mudou foi a quem se devia obediência. Agora não era a “Cristo”, e sim, aos dirigentes de Estado. Quer dizer, a alfabetização oferecida ao povo não os instrumentalizava para que esses pudessem contestar a realidade em que viviam e transformá-la, caso desejassem, deveriam apenas aprender a obediência, a docilidade e o respeito às normas estabelecidas pelo Estado.

Com essa nova consciência em relação à alfabetização, o analfabetismo passou a ser visto como um problema: os não alfabetizados fogem do “adestramento” da escola, o que significa uma diminuição da reserva de mão de obra barata.

E assim, podemos dizer que a escola laica e gratuita foi fundada nos mesmos preceitos das tentativas religiosas e filantrópicas de estender aos pobres o acesso aos bancos escolares, ou seja, dar ao povo os rudimentos da leitura e da escrita, além de ampliar e corrigir uma educação familiar considerada insuficiente. Nessa perspectiva, a escola se caracteriza como uma instância especializada em educação que completa a instrução familiar e outros ambientes de socialização.

Desde sua origem, a escola tem para os “pobres uma escola pobre”, isto é, um ensino superficial com o intuito de garantir o mínimo possível. Muitos estudiosos afirmam que diferentes grupos controlam o ensino primário. No entanto, parece que os objetivos, as ideias, que estiveram presentes não diferem, conforme o grupo que controla. Esses grupos, religiosos, nobres e burgueses, disputam o controle da mesma classe, o povo que tem menores condições econômicas. E o que muda apenas são as estratégias utilizadas para efetivar o objetivo de controle. Esses grupos, em diferentes momentos históricos, organizam as escolas elementares de forma a garantir ao povo nobre um ensino condizente com a sua condição.

Dessa forma, está instituída a alfabetização que garante a aquisição de habilidades mínimas de leitura e escrita e, ao mesmo tempo, educa o indivíduo pobre para o amor ao trabalho e a obediência aos governantes.

É importante destacar que, embora esse processo remonte tempos idos, ainda hoje, algumas práticas conservadoras permeiam a sala de aula e a instituição escolar. Ações como o castigo pelo mau comportamento e o prêmio pelo bom comportamento para servir de exemplo aos outros/as alunos/as.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Ninguém vai conseguir resistir sozinho

Por Alessandra Orofino

Hoje quero escrever para os amigos, conhecidos, e conhecidos de conhecidos que vestiram verde e amarelo. Que foram pra rua pedir que Dilma caísse. E que estão vendo essa demanda ser atendida.
Quero dizer que eu também não estava satisfeita com o governo dela, em aliança com o PMDB. Que fiquei chocada, triste e envergonhada ao constatar o tamanho do buraco da corrupção na Petrobrás. Preocupada com a economia. E cansada de tanto escândalo, de tanto dinheiro suado e honesto indo parar nas mãos de quem nem trabalha nem entende o que é honestidade.

Quero dizer que além de tudo isso, me incomodava sua recusa em dialogar com a sociedade, repetidas vezes. Seu desenvolvimentismo ecocida. Seu desprezo por qualquer minoria que se colocasse no caminho desse projeto. Suas alianças com os coronéis de outrora e os prefeitos arrogantes de hoje.

E era por tudo isso que eu estava me cercando de gente que gosto e admiro, para fazer pressão durante os próximos anos. Para disputar o governo dela e resistir às suas falhas, cotidianamente. E era por isso que eu ansiava pelo retorno do debate eleitoral, em 2018. Para que ela saísse, e pudéssemos discutir um novo plano. Uma visão renovada de país. Em que você e eu pudéssemos discordar, também. Democraticamente.
E no entanto, ela caiu agora. Eu entendo a sua pressa. Eu também tenho pressa. Mas nessa impaciência, você esqueceu que o como das coisas importa tanto quanto o quê das coisas. E ela sair desse jeito, pela mão dessas pessoas, importa mais do que ela sair de qualquer jeito.

Você pode não acreditar que o processo seja ilegal. Você pode insistir que havia razões muito válidas e constitucionalissimamente aceitáveis para que ela caísse. Mas a verdade é que os arquitetos da queda de Dilma não estão interessados nem em legalidades, nem nos temas que são importantes pra você. Também não se importam com aquilo que é fundamental pra mim. São uma casta política, cada vez mais afastada de nós, disputando os últimos lugares dos botes salva-vidas de um Titanic prestes a afundar.

Nós estamos lá embaixo, presos atrás das grades e vendo a água subir, enquanto a primeira classe de podres políticos ainda tenta se salvar do afogamento iminente. Você sabia que, para as eleições deste ano, PT, PMDB e PSDB estão coligados em quase 30% dos municípios? Isso quer dizer que o voto em um candidato ou candidata à vereador do PMDB ou do PSDB pode eleger um petista em quase um terço das cidades brasileiras. E vice-versa. Você acha mesmo que esses partidos estão interessados em "extirpar a corrupção petista" do país? Você acha que existe alguma possibilidade de ser esse o grande objetivo que os acontecimentos de ontem e hoje revelam?

Veja: o governo que, ao que tudo indica, assumirá em caráter definitivo não terá sido colocado ali nem por mim, nem por você, nem por ninguém - com a exceção de um punhado de auto-interessados. Até porque ninguém vota no vice esperando que ele se volte contra a cabeça de chapa e arquitete sua queda, mantendo-se intacto, e aprofundando um estelionato eleitoral já em curso.

O fato deste governo não ter nem o meu voto nem o seu voto permitirá que ele tente implementar no país políticas que não seriam aceitas nem por mim, nem por você. Sabe, eu tenho certeza que a gente não vai concordar em tudo. Mas também acredito que você, assim como eu, quer viver num país mais justo. Inclusive, você respondeu a um monte de pesquisas de opinião que comprovam isso - você, ou outros que estavam nas ruas junto com você.

Essas pesquisas mostram o mais que óbvio: você, assim como eu, quer ser assegurado de que, mesmo se você amanhã passar por uma dificuldade ou ficar sem nenhum tostão, seus filhos serão educados com qualidade e as pessoas que você ama não morrerão numa fila de hospital.

Eu não estou dizendo que, com Dilma, nossos sistemas de saúde e educação melhorariam magicamente. Mas estou afirmando que com um governo desprovido de mandato popular não existe nenhuma possibilidade dessas áreas serem prioridade. Porque se um governante sabe que pode chegar no poder sem voto, ele não fará grandes coisas para atrair futuros eleitores. E governará para si. Para si, e para a mesma casta que sempre promoveu festas com dinheiro público - aquelas festas que você, com toda razão, quis evitar.

Eu não acho que você tenha se mobilizado pra isso. Não acho que tenha pintado a cara e tomado as ruas pra isso. E justamente porque não acho que você seja mau, ou que queira o mal do Brasil, que espero que a sua luta não acabe na quarta-feira.

Porque o que vamos encarar, juntos, nos próximos dois anos, é uma máfia que não precisa nem fingir que tem compromisso com o país. Uma máquina que se alimenta sozinha e não precisa de mais ninguém para manter-se viva. E ela vai direcionar sua fúria contra todos nós. Nossos direitos, nossos sonhos, nossa possibilidade de vida em comum. Poucos estarão a salvo. E esses, em sua maioria, não vão para a rua nem contra nem a favor de ninguém. Preferem levar seus complôs a cabo por outros meios.

Amanhã, contra essa máfia e contra essa máquina, começa a resistência. E eu não vou conseguir resistir sem você. Ninguém vai conseguir resistir sozinho.

Vamos juntos?

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