sábado, 13 de outubro de 2012

Epistemologia: O conhecimento do que mesmo?


Começo por uma metáfora própria.
Um homem entrando numa floresta desconhecida observava tudo ao redor quando, de repente, percebeu um pântano a sua frente. Precavido, lançou mão de uma varinha com a qual tateava o pântano antes de dar o próximo passo em direção ao seu centro. A certa altura descobriu que dali em diante o pântano era muito fundo. Decidiu fincar a varinha naquele local para que outros soubessem do limite e do perigo. Satisfeito com suas descobertas, foi embora. Veio um segundo homem a explorar a mesma floresta deparando-se com a varinha demarcando o meio do pântano. Então, amarrou outras varinhas na primeira fazendo uma frágil e pequena cerca. Vindo um terceiro homem e, encontrando a cerca, resolveu cobri-la com folhas como se fosse uma cabana. Tudo um único ponto de apoio, a primeira varinha. Vindo um quarto homem que, como os outros, não sabia o que encontraria na floresta, achou a “cabana” e pôs-lhe portas, janelas e muros de alvenaria. Finalmente, vindo um último homem e vendo casa de alvenaria, decidiu construir um enorme edifício, um verdadeiro arranha-céus. Uma construção admirável admirada e visível até bem loge da floresta. Toda esta construção tinha um único ponto de apoio: a simples vara fincada num terreno pantanoso.

Talvez, você pense: que loucura é essa? De fato, qualquer pessoa com um pouco de maturidade ou sanidade diria que essa é uma história absurda mesmo para uma parábola. Por outro lado, não é preciso ser um engenheiro para saber que tal proposição nunca seria viável. Mas é disso mesmo que estamos falando.

No mundo da ciência cujo pressuposto é a retórica, essa proposição nunca  é/foi/será será absurda. Se não, por que cada filósofo contesta (de certo modo) o outro que o precedeu? Se não, por que somente no mestrado, quiçá no doutorado, pode-se propor novos questionamentos? Por que grandes discursos do passado, tidos como o suprassumo do saber na época, hoje, cheiram a naftalina? O que dirão as próximas gerações das nossas certezas incontestes de hoje?

Neste fundamente, Schleiermacher tinha razão. É preciso saber ouvir. Ouvir o que é dito e, principalmente, o que não é dito. É preciso perceber nas entrelinhas ainda que não seja alguém erudito e eloquente. Mas, para isso, é preciso um pouco de humildade socrática “de nada saber”, é preciso ser epistemologicamente pedagógico como Paulo Freire, é preciso perguntar com toda honestidade: o que você está querendo dizer?

Se não, tudo não passa de retórica, com ou sem fundamento; de titulação, com ou sem conhecimento; de construção de discurso, com ou sem sentido, motivo ou razão. É assim que se constroem os arranha-céus do conhecimento, com discursos. Talvez a pergunta não seja o que é o conhecimento? Quem sabe seja: conhecimento de que, para quê e por quê?

"O que quer dizer o autor através do texto?" (Schleiermacher)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Convite: Aniversário da Reforma (5 Solas).


Dia 31 de outubro, aniversário da Reforma Protestante.
Saiba o que foi a Reforma e qual o seu significado para nós ainda hoje.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Líder ou responsável?


Aquela turma era excelente. O ingresso por concurso já estabelecia um nível de alunos acima da média brasileira, mas aquela turma...

No segundo ano, o aluno mais maduro e estudioso foi eleito representante da turma dando início também a sua caminhada "política" na escola. Ele se aproximou do Grêmio Estudantil. Apesar do seu excelente caráter via-se obrigado a não ser tão frequente as aulas dado o seu real compromisso com seus representados.

Certa feita todos os estudantes se envolveram numa passeata. Eu, sempre apoie movimentos políticos legítimos e como os amava alertei-os para o perigo de tornarem-se massa de manobra, naquele caso específico. A decisão final, contudo, seria pessoal; sem transferências de responsabilidade. Cada um haveria de assumir o ônus e bônus da sua escolha. Assistir aula ou ir à passeata. E, claro, a turma se dividiu. Uns foram e outros ficaram.

Acontece que eu não poderia dar presença para os que foram. Se algo ruim acontecesse meu diário serviria de alibi para os ausentes e esse foi o ponto de discórdia. De uma hora para outra aquele jovem entrou na minha sala na aula seguinte para tomar satisfações. Segundo ele, eu teria que assinalar a presença daqueles que foram a passeata.

Ele sempre fora um bom garoto por isso, respondi que não poderia fazê-lo sob pena de constituir uma fraude, no mínimo moral. Na aula seguinte os que tinham ficado estavam chorosos porque o representante os acusava de traição. Pior, novamente ele retornou de forma arrogante me acusando e ameaçando falar com a direção da escola. Aí foi demais.

Disse-lhe: Você pode chamar quem quiser porque, agora, não só não vou marcar a presença como também vou descontar os pontos referentes à participação em classe. Diante da minha ênfase e do respeito mútuo que sempre tivemos o rapaz caiu em si. Visivelmente arrependido me pediu desculpas e num ato de grandeza me disse: Professor, não penalize meus colegas por causa do meu erro. Por favor, desconte somente os meus pontos.

Confesso que senti um nó na garganta ao ver aquele jovem rapaz tomar tão nobre atitude. Recomposto eu lhe disse: Sempre te admirei e respeitei, é claro que te perdoou. Também já fui jovem e nem sempre fui tão maduro quanto você foi hoje. Porém, quanto aos pontos eu não abro mão. Seus colegas são responsáveis pela escolha de seus líderes e você como líder precisa aprender que suas atitudes refletem-se nas deles.

Eu sabia que aqueles poucos décimos não os reprovariam. Eles eram excelentes alunos. O que fiz foi aproveitar o momento para ensinar que toda liderança precisa ser responsável. Responsável da parte dos líderes e responsável da parte de quem os elege.

Líder ou responsável? As duas coisas são igualmente importantes.

Ah sim, quanto a rapaz somos amigos até hoje.

sábado, 28 de abril de 2012

Teólogos da corte

Eles vão nos engolir no café da manhã; simples assim. Têm comando, unidade, poder político e financeiro e, agora, uma voz profética. Enquanto isso, continuamos discutindo entre nós e com todos os outros.

Por: padre Paulo Ricardo de Azevedo




Quando foi que a Igreja Católica deixou de ser, no Brasil, a instância profética que questiona? Em que momento ela foi seduzida e tornou-se uma Igreja composta por teólogos da corte - aqueles que compõem o séquito do novo Príncipe, o Partido dos Trabalhadores? Quando foi que ela deixou de ser defender a fé católica e passou a aceitar e a justificar as atitudes do Príncipe? Para onde foi a Igreja Católica do Brasil?


O católico verdadeiro não pode apoiar um governo que não tem ética cristã, que não tem o pudor de promover todo tipo de imoralidade que visa destruir a família, a moral cristã e a herança patrimonial cristã sobre a qual foi construída a nação brasileira. Os teólogos da corte que não temem mais o juízo de Deus, pois deixaram de crer há muito tempo, mas devem temer o julgamento da História, esta sim, irá julgá-las com severidade e, quiçá, condená-los. Afinal, eles buscam retirar do mundo a transcendência.


O único sentimento que o silêncio vil e a covardia produzem nos verdadeiros católicos é a vergonha. Vergonha desses teólogos da corte!

Fonte: 48 - Parresía: Teólogos da corte

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Integridade: cristã?


Diante das enormes colheronas ousei também meter minha pequena colherinha no assunto: Integridade cristã. Mas, afinal, de qual integridade está se falando?

Quando se fala em integridade cristã, é de menor importância saber como Saul, David ou qualquer outro personagem bíblico perdeu sua. David sabia muito bem como Saul a perdeu, mesmo assim também pecou. (Um pecado muito mais grave que o de Saul). Salomão também conhecia bem a perda de integridade de seu pai, mesmo assim a perdeu em determinado momento. Logo, importa muito mais é saber: como Cristo manteve a sua integridade? Nestes termos o que eu “quero” ver é a integridade aos moldes de Cristo. (quero=desejo ardente, volição, sede, anseio).

Quero uma integridade que faça justiça ou então não é integridade, não cristã. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mateus 5,6). Quero a justiça para com o “estrangeiro”; para com aquele que pensa diferente, crê diferente, vive e age diferente. Porque, se amarmos os nossos amigos que diferença há entre nós e o mais cruel dos homens? Acaso não ama, ele, seus amigos e parentes? Por isso, pergunto: faz justiça quem julga o outro sem o conhecer? Acaso elegeu, ele, a outrem em sua defesa? Fez de alguém a sua boca? Então, como julgas quem não conheces?

Quero a justiça do ouvir o outro e não somente “escutar educadamente”. Ouvir com o coração, no coração (misericórdia). Ouvir com sensibilidade, sentindo a dor do outro e sem a crueza do silêncio mascarado de “educação”. O silêncio dos “piedosos” e falsos eruditos que encontram nele, no silêncio, um modo de não se envolverem, de se esquivarem e se esconderem. O silêncio da indiferença. Ah indiferença, a pior das desumanidades! Passam ao largo do caído e não estendem a mão porque nela, fazem do que clama um leproso imundo ou, como fizeram ao cego de Jericó, um mendigo.

Quero a Justiça do mais forte para o mais fraco. Porque só quem pode garantir a justiça (enquanto equilíbrio) é quem tem o poder como aliado. É preciso perder (perdoar) para ganhar mesmo porque, justiça mesmo só Deus pode fazer. É preciso enfrentar o camelo e saltar o mosquito. Se não, será como o homem que sendo perdoado no muito foi um algoz no pouco para com seu devedor.

Quero a integridade da transparência. Transparência nas informações expostas, nas reuniões às portas abertas e nos assuntos importantes sem os joguetes políticos. De que adianta citá-los ou mesmo instá-los como falta de integridade, se só vale para o outro? Precisa valer para mim e em mim, antes de tudo. Transparência à luz do dia e na presença de muitas testemunhas.

Quero a integridade da palavra franca e aberta. Do sim, sim ou não, não. Sem mentiras, sem as meias palavras ou as falácias. Sem a mais vil das falácias: a meia verdade, mãe de todas as mentiras (Gênesis 3,5). A franqueza, contudo, das palavras temperadas com sal, mas ditas sempre. Não o silêncio covarde.

Quero, por fim, a integridade da verdade. Sem autoridades ou autoritarismos entronizados nos palácios do poder. A verdade com a simplicidade e a pureza de uma criança. A verdade que liberta o homem, antes de tudo, de si mesmo. A verdade sem arrogância e sem a mais dissimulada das vaidades: a vaidade de ser humilde. Nesta esconde-se de tudo, até a verdade. Mas nunca para si mesmo. “Não há dolo no líder que pede perdão”. Verdade! Mas quem é àquele a admitir o seu erro? Saul não o fez, Davi sim. Não é bem diferente? O Mestre não disse aos que tentavam justificar-se: não é verdade. O que ele disse foi: “Em verdade vos digo que vos não conheço”. (Mateus 25,12)

Portanto, integridade é mais que saber. É fazer, é viver, é ser.  O quê? Justo e simples como Jesus, o Cristo, fez, viveu e foi. É isso que eu entendo como integridade cristã.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Saudades do Osvaldo


Não é o seu aniversário ou qualquer data especial para ele. É para mim e isso já basta: Saudades do Osvaldo!

Saudades do professor brilhante que verdadeiramente se preocupava com seus alunos. Preocupava-se, antes de tudo, com a autonomia deles. Jamais ridicularizou qualquer fala por mais absurda que fosse. Pelo contrário, ouvia (ouvia mesmo não somente escutava como a maioria) e só depois trazia um questionamento a respeito.

Saudades do coordenador cuja coragem para enfrentar os desafios propostos pela organização foi contagiante. Contagiante para, nós, seus alunos e para, eles, seus professores. Ele não olhou para infantilidade das metas propostas pela cúpula ou tentou encontrar as soluções sozinho. Para ele o problema só poderia ser resolvido com trabalho em equipe. E foi em equipe que nós avançamos a despeito de tudo, das surpresas do MEC, inclusive.

Saudades do homem íntegro que sabia se posicionar em todas as situações sem perder sua identidade. Chamo isso de “anticamaleão”. Não ele não era um aqui, outro ali e outro acolá. Era sempre o mesmo em seus posicionamentos. Sempre respeitosos, mas fundamentados em argumentos. Quem não sabia argumentar haveria de perder a “discussão”. Ele, o Osvaldo, não se escondia, não se camuflava, não tergiversava, não era falacioso e não faltava com a verdade. Olhava sempre olho no olho respeitando quem quer que fosse. Do menor ao maior ele respeitava.

Saudades da sua fé no futuro melhor apesar das incoerências das organizações. Saudades do seu altruísmo, do seu senso de justiça e da sua empatia. É ... saudades do Osvaldo.

Neste último ano começo a “encaixotar” as lembranças que levarei do Seminário Batista do Sul do Brasil. É verdade que as lembranças amargas são as que mais ficam gravadas na memória, mas quero pensar nas boas coisas que aqui vivi. Entre elas certamente está a figura do professor, coordenador e homem íntegro de Luiz Osvaldo Ribeiro.

Este blog tem um pouco da sua essência. Facultare est (há escolha) representa um sigelo fragmento daquilo que com ele aprendi. A autonomia.

Saudades do Osvaldo!


O que eu mais amo no Seminário do Sul ... na verdade ... é a absoluta liberdade que nós temos para pensar, para lecionar, para se relacionar com os alunos ...
(Osvaldo Luiz Ribeiro)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O que é: falácia?

O termo aqui tratado está no sentido filosófico desenvolvido a partir de Aristóteles na forma de encadeamento de ideias, mais tarde chamado de silogismo. Portanto, estamos falando de: "Argumento capcioso que induz a erro". (Fonte: http://www.dicio.com.br/falacia) e "Sofisma ou engano que se faz com razões falsas ou mal deduzidas". (fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx)

Na vida cotidiana elas nos rodeiam a maior parte do tempo e nem sempre é utilizada com má intenção. Mesmo assim a falácia induz ao erro porque, em última análise, os argumentos aparentam solidez. Essa "solidez" dos argumentos dá-nos a impressão de que a conclusão é verdadeira o que torna difícil perceber quando uma sentença é falaciosa e quando ela é verdadeira..

Algumas falácias clássicas:
“Todo mundo sabe ...”. Todo mundo quem? Se a resposta for incerta ou não existir, seja lá o que venha depois é falácia. Parece verdade, mas não é.
“O especialista X disse ...”. Especialista em que? Alguém leu ou ouviu o que ele disse? Os alicerces do especialista são os mesmos de quem está tentando fazer valer o seu próprio argumento? Cuidado! Pode parecer verdade, mas talvez não seja.
“No país X ...”. Qual a relação entre o país X e o nosso na questão proposta? Os cenários se repetem? Os aspectos culturais e socioeconômicos interferem na proposta? Então....

A falácia não é uma mentira em si mesma, mas tem a mesma função pois induz ao erro por causa das "razões falsas ou mal deduzidas". Mas não se engane; quem constrói a falácia (diferente de quem a repete) quase sempre sabe muito bem o que está fazendo.

Uma das falácias mais conhecidas da história está na Bíblia.
"Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal". (Gênesis 3,4.5)
A serpente começa pela conclusão (Certamente não morrereis) contrapondo a conclusão afirmada pela mulher do versículo anterior (Gênesis 3,3).

Depois engendrou argumentos verdadeiro para convencer de que sua conclusão era verdadeira (Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal). Ora, estes eram os argumentos de Deus e não da serpente.

Qual foi o problema? Onde está a falácia? 
Deus não disse que os olhos não se abririam, não disse que não conheceriam o bem e o mal e, também não disse que não seriam como Ele. “Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” (Gênesis 3,22a). Portanto, estes argumentos (abrir, conhece e ser) não tem nenhuma relação com a conclusão (morrer).

O que o Senhor disse foi: “ ... da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. (Gn 2,17b). Ou na língua original “morrerás, morrerás”. O Senhor não deixou dúvidas quanto a sentença. Logo, a questão que estava vinculada ao morre era o comer e não abrir, conhece e ser. Ao serem perguntados o porquê fizeram tal coisa a mulher foi honesta ao dizer: “A serpente me enganou, e eu comi”. (Gênesis 3,13b).

Essa foi uma falácia muito bem elaborado com a clara intenção de levar ao erro. Cuidado! Falácias são sedutoras, mas nunca não são verdades.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O que é: dualismo?


Talvez não saiba do que se trata, mas 99% das pessoas pensa deste jeito. Você é uma exceção?

Dualismo: é uma concepção filosófica ou teológica do mundo baseada na presença de dois princípios ou duas substâncias ou duas realidades opostas e inconciliáveis, irredutíveis entre si e incapazes de uma síntese final ou de recíproca subordinação”. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dualismo).

Não entendeu? É fácil. Se um está certo o outro OBRIGATORIAMENTE estará errado e vice-versa. De fato esta lógica é excelente para computadores (os número binários), é boa para estudos de ciências exatas e, é boa para questões de princípios essenciais: vida e morte, luz e trevas e assim por diante. Contudo, é horrível para situações da subjetividade humana.

A começar pelas coisas mais simples do cotidiano: Não torce por um time não significa que torcer pelo “arquirrival”. Aliás, quem inventou essa tolice (arquirrival)? Não gostar de um ritmo musical não é o mesmo que gostar de outro. Se você já estudou sobre lógica dirá que estou induzindo ao erro porque as premissas são falsas. Tá bom; é verdade. Então, vou trocar. Torcer por um time não significa odiar o outro ou amar um ritmo não significa detestar o outro: melhorou!?

Quando se trata de questões profundas da vida então, piora ainda mais: Quem concorda comigo é meu amigo, se não é meu inimigo. Conheci um homem que dizia: “Eu amo tanto minha esposa, não entendo por que ela não me obedece”.  Assim, vamos classificando as pessoas entre boas e más, certas e erradas, loucas e lúcidas, inteligentes e burras e por aí vai.


Pensando assim (sendo dualista) não é difícil entender as tantas guerras ao longo da história. Guerras por questões econômicas muitas vezes alicerçadas nas “questões religiosas”. Quem não crê como eu é pagão; se não diz o que eu digo é herege, se é negro não tem alma etc.Todos estes discursos pseudo religiosos (cristão neste caso) já foram usados no passado para cometer-se as mais incríveis barbáries em “nome de Deus”.

Por que os discursos funcionaram? Por que ninguém contestou com amor (ágape) de Paulo (1 Co 13) ou de João (3.16)? Por que as ideias mais estapafúrdias são aceitas de forma tão imediata, como matar em nome de Deus? A resposta é simples: Dualismo.

O modo mais fácil de convencer o neófito de que ele faz a coisa certa e de convencê-lo que é um herói é dizer que ele tem A razão (ou A verdade). Convencido de estar certo (de ser o dono da verdade) o incauto imediatamente e sem pestanejar irá pensar que tudo mais que for diferente estará irremediavelmente errado, é falso ou é mentiroso.

Como disse, tantos nas coisas simples quanto nas profundas pode ocorrer de existir apenas duas possibilidades. Contudo, dentro da subjetividade humana quase nunca o dualismo funciona sem causar grandes estragos.

Dois exemplos finais: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” de Mateus 12.30 e “Jesus, porém, disse: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e possa logo falar mal de mim. Porque quem não é contra nós, é por nós” de Marcos 9.39-40. Os dois textos parecem contraditórios, no entanto, o primeiro se refere a luz e a trevas (nunca se misturam), enquanto o segundo refere-se ao modo como os “não-apóstolos” falavam de Jesus. Só porque não viviam com Ele não significava que não poderiam anunciar o Seu reino.

E você, é dualista? Você concorda com o artigo?
Veja como é fácil saber. Não faz a menor diferença se concorda ou não. Se você não for dualista achará ARGUMENTOS para discordar ou para aceitar, tanto parcialmente quanto integralmente. Mas se for dualista dirá: é porque é ou, não é porque não é. Percebeu? Percebeu-se?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Escrevo ...


Escrevo porque não sei fazê-lo
Escrevo para não esquecer
Escrevo para chorar menos
Escrevo para não “morrer”

Se não, posso perdê-Lo,
Vou esquecer, vou voltar

Nas lembranças eu não me perco
O escrito fica lá
E quando quero desistir
A letra me faz prosseguir

Quando escrevo sou livre
Faço com ternura ou com dor
As vezes nem sei por que faço
Apenas escrevo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A diferença está na dose


Existe uma pequena grande diferença entre o veneno e o a vacina. É a dose.

O veneno cumpre o seu papel destruidor enquanto a vacina cumpre o seu papel restaurador. Quanto mais intenso o veneno maiores são os danos causados. Alguns dos nossos sentimentos podem ser mais destruitivos que o mais terrível dos venenos porque destroem a nossa alma. O ódio é um exemplo. Willian Shakespeare disse que “Odiar alguém é como você beber o veneno e esperar que o outro morra”.

Assim como sentimentos ruins, os “bons” também podem levar a morte. “Há um caminho que parece direito ao homem, mas o seu fim são os caminhos da morte” (Provérbios 16.25). Por que aquilo que parece bom pode levar a morte? A pergunta retórica do profeta esclarece. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9).

Ora, se maus sentimentos nos levam a destruição e “bons” sentimentos também podem fazer o mesmo, então o que fazer?

Em primeiro lugar evite, desvie, apague e faça de todo o possível para não alimentar maus sentimentos, seja por alguém ou por você mesmo. Sentimentos ruins sempre são destrutivos.

Em segundo lugar, nem sempre os sentimentos bons levam a morte. Segundo o Apóstolo Paulo o amor (ágape) “é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.  (1 Coríntios 13.4-7).

Sentimento maravilhoso é o amor com o qual Deus também nos amou. O amor (ágape) de João 3.16. Contudo, tanto no versículo 6 da carta de Paulo quanto em outras passagens do Evangelho, tal amor não representa passividade. Ser pacífico é muito diferente de passivo. Todos os profetas de Deus, sem exceção, sofreram dores e perseguições por falarem a verdade ordenada pelo Senhor. Nem mesmo Jesus escapou.

Então o que fazer? Não podemos nos conformar (tomar a forma do mundo) tão pouco nos destruir com sentimentos ruins. O que fazer!?

Acontece que a vacina vem da mesma fonte que o veneno e assim como na medicina o tênue fio que separa o sentimento destrutivo do sentimento dolorido é a dose. A mesma dor fazia parte do sentimento do profeta Habacuque. “Por que razão me mostras a iniqüidade, e me fazes ver a opressão? Pois que a destruição e a violência estão diante de mim, havendo também quem suscite a contenda e o litígio” (Habacuque 1.3).

Por isso, não aceite ser moldado, testemunhe, denuncie e seja como o Mestre. Ele não fazia a menor questão de frequentar os palácios ou a roda de religiosos da época. Ele não estava interessado em ser popular ou em cargos políticos da denominação judaica (Fariseus, Saduceus etc.). Ele pagou o preço de ser fiel ao Pai e foi-lhe fiel até as últimas consequências. Só não exagere na dose. Ame! Porque, acima de tudo, o que Jesus levou as últimas consequências foi o amor e não os ressentimentos.

No momento mais difícil da sua vida suas palavras foram de bênçãos e não de maldição. “E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. (Lucas 23.34).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Com os faróis virados para traz ou para frente?


Houve um tempo em que a igreja detinha o conhecimento tanto da ciência quanto de “Deus”. Foi uma época próspera diriam alguns, mas não foi sem dor. Matava-se em “nome de Deus”. As cruzadas por um lado, e o massacre dos anabatistas por outro, são exemplos de um cristianismo que nada tem a ver com o Cristo. “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5.39).

Se era impossível àquela sociedade lutar contra Deus (na figura da igreja) era possível lutar contra o monopólio do conhecimento clerical. No século XIX comprovou-se o quanto e como haviam erros no conhecimento humano segundo as “bases bíblica”. A igreja, finalmente, perdeu o domínio do conhecimento e acabou por perder também poder sobre o destino das pessoas. A ciência desafiava a igreja e avançava de tal forma que não havia mais saída. Ou ela se fechava em seus dogmas ou se expunha ao açoite do conhecimento científico.

Foi nessa época que os corajosos reformados aceitaram o desafio de olhar o futuro de frente, olho no olho. Estes homens (daquele século e naquele contexto) ousaram olhar para frente contudo, tamanha ousadia custou-lhes muito caro. Aqueles crentes de verdade que não fugiram das perguntas, para as quais não tinham resposta, receberam o título de teólogos liberais. Em seu desejo de manter a fé em Jesus Cristo de modo honesto e não dogmático eles tiveram de abrir mão de valores “sagrados”. E esse foi o pecado que cometeram. Porque enquanto a Europa naufragava em guerras e o crescente ateísmo, conceito completamente diferente de teologia liberal, os EUA crescia e prosperava com sua teologia fundamentalista.

Passaram-se os anos e ninguém duvidava que feliz (leia-se próspera) é a nação cujo Deus é o Senhor; bem aos moldes de Deuteronômio 28. No texto, tudo de bom aconteceria se obedecessem ao Senhor. Mulheres e animais férteis, plantação rica e próspera, riquezas e poder sobre os outros povos seriam as “bênçãos de Deus” para o seu povo (leia-se Judeus). Se não, tudo de mal lhes sobreviria. Maldições, pestilências, escravidão e infertilidade; castigos pela desobediência ao Senhor. E Europa e seus teólogos? Só sobrou Karl Barth e com reservas.

Mas o tempo passa e as coisas mudam como também mudaram para os hebreus. Hoje, qualquer criança tem acesso à informação que anteriormente levávamos dias para encontrar. A pergunta deste tempo é: até quando nós vamos ignorar este fato? Alguém imagina que ler a revista na EBD ensina a alguém sobre os valores de Deus? Que seja! Se aula for ótima, isso isenta o seu filho ou filha de receber informação totalmente contrária na escola? Um domingo vale mais que os cinco dias na escola? Uma hora vale mais que as vinte na sala de aula? Isso sem falar na televisão, Internet etc. Agora que os EUA estão em crise. Eles que responder as mesmas perguntas que os europeus no passado. “Onde está o Deus da prosperidade”, o Deus da barganha que  “abençoa”  quem lhe “é fiel” e pune quem “não é”? Será que Deus é só isso?

Por acaso aqueles que detêm títulos espirituais de conservadores, fundamentalistas e etc., teriam lido Crer é também pensar de John Stott? Este é nosso tempo e aqui no nosso Brasil. Estamos vivendo sob dois estigmas: A teologia fundamentalista e a teologia liberal cujos sentidos já mudaram muito desde o século passado. Fundamentalista, hoje, é quem crê em Deus e é portanto, autenticamente "espiritual". Enquanto liberal, hoje, é quem não crê em Deus e relativiza tudo que se refere a Deus. Duas grandes tolices dividindo a teologia. Parece que temos sempre estar de um dos dois lados. Calvinistas versus Arminianos, Católicos versus Reformados, Fundamentalistas versus Liberais e assim por diante.

O problema é que nosso carro está com os faróis virados para traz. Nosso discurso não funciona mais; as pessoas não entende o que estamos dizendo. Conquanto, o Espírito Santo ainda age maneira sobrenatural. Ele continua a transformar o homem apesar do discurso ser, como disse, nosso. Com os faróis  virados para traz só podemos ver os buracos que evitamos ou caímos depois passarmos por eles. Jamais saberemos para onde vamos ou que vem pela frente.

Não é por outra razão que a teologia da troca de Deuteronômio 28 travestida de Teologia da Prosperidade cresça cada vez mais. Ela responde as perguntas que as pessoas estão fazendo. Ela busca atender o anseio e necessidades mais simples de um povo igualmente simples. E mais, ela tem mais chance de reconquistar a Europa do que as teologias chamadas liberais ou tradicionais.

Uma nota se faz necessária aqui. Não negocio valores como a cruz de Cristo, sua ressurreição e sua filiação a Deus, o Pai. Não ignoro ou menosprezo o Espírito Santo que convenceu, antes de tudo, a mim da justiça do pecado e do juízo. Também não defendo a teologia da troca como saída para esse nosso século. Falo da nossa ignorância quanto ao mundo e sociedade em que vivemos. Ignoramos os valores deste século como se nada houvesse de bom no mundo ou no homem. Se o mundo jaz no maligno é por nossa causa: “maldita será a terra por causa de ti” (Gênesis 3.17) e não que mundo seja mal em si. Ele tornou-se mal por causa do pecado, mas lá no princípio viu Deus que o mundo era bom. Se o coração do homem é mau continuamente, lembro que Deus amou o mundo de tal maneira que entregou o seu único filho por amor a este mesmo homem de coração mau.

Minha “crise” é perceber que ainda agimos como meninos que precisam de leite, ainda que não falsificado. Não amadurecemos assim como não crescemos a estatura do varão perfeito que é Cristo. Se como líderes vamos levar a sério a Bíblia então precisamos responder ao menos a duas perguntas: 1-  O que significa “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento” de I Coríntios 14.20? 2 - Qual o sentido do texto “E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens” de Lucas 2.52?

Para quem está terminando a caminhada estas perguntas causam mais dor que alegria. Para quem está apenas começando é bom pensar que a dor é ou será inevitável. Melhor procurar respostas o quanto antes se o desejo é permanecer no ministério. Ou então deixe-se seduzir pelo mais fácil como tantos têm feito e renda-se a teologia da prosperidade. O mundo está cheio de perguntas e espera que alguém as responda. Por um lado, as antigas repostas não servem mais por outro, responder perguntas que ninguém fez também fazem o menor sentido.

Que o Senhor nos ajude!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entre a Ciência e a Sapiência

Caro sr. Roberto Marinho...
Por Rubem Alves

São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.

Sonhos fazem um povo. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o brasileiro sonhar.
Meu pensamento, de tanto ler os poetas e interpretar sonhos, acabou por adquirir prazer especial em associações insólitas. E foi assim que aconteceu: a visão de um anjo me fez pensar no senhor.

Explico-me.

Perturbado pelas orgias natalinas, tratei de proteger-me contra a loucura ouvindo música sacra e revendo as obras de arte referentes ao nascimento do Menino Deus. Meus olhos se detiveram na tela "Anunciação", de Fillipo Lippi: o Anjo, ajoelhado, de perfil, lindo rosto juvenil, asas cor-de-abóbora com manchas negras, mansamente diante da Virgem Bendita, assentada, olhos castamente voltados para o chão, as Sagradas Escrituras na mão esquerda, enquanto um Pássaro, pomba, aproxima-se dela em vôo, asas abertas, e está prestes a pousar no seu colo.

O Anjo trouxera o Pássaro. O Pássaro era a semente engravidante. E, como é bem sabido, nos poemas sagrados o Pássaro é o Espírito. Maria foi engravidada pelo Pássaro Divino.

Uma tradição teológica antiquíssima reza que Maria permaneceu ginecologicamente virgem porque foi pelo seu ouvido que o Pássaro entrou. Acredito: muitas gravidezes acontecem através do ouvido.
Ora, o que entra no ouvido é a palavra: o Pássaro Divino cantou um canto tão lindo que a Virgem ficou grávida e dela nasceu o Filho de Deus.

Hoje muito se fala sobre anjos e suas funções. Mas nunca ouvi ninguém se referir aos importantíssimos Anjos Engravidantes, os mesmos que fizeram Sara ficar grávida depois de velha. Assim, pela mediação de um Anjo Engravidante, Deus Todo-Poderoso empreendeu trazer o Paraíso de novo à Terra.

Foi então que o meu pensamento deu uma cambalhota. Pensou que, se fosse hoje, as coisas teriam acontecido de forma diversa: a Virgem, em vez de ter o livro sagrado na mão esquerda, estaria ligada a algum canal de televisão.

Anjos e televisões se parecem em virtude de sua limitada capacidade virtual: dentro dos dois moram e voam pombas sem número. E seria do vídeo que a Pomba divina estaria saindo e voando, não só para o ouvido como também para os olhos da Virgem. Por meio da televisão, a Imaculada Conceição.
Anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns.

Veio-me, então, a idéia de que, talvez, o senhor pudesse ser um deles. O Anjo engravidou uma virgem pela palavra. A TV engravida por palavra e imagem. O senhor, dono da Globo, é muito mais potente que qualquer anjo. Anjos engravidam no varejo. O senhor pode engravidar no atacado. Já imaginou?

Engravidar uma nação inteira?
Eu não tenho 63 anos: 63 paus de fósforo que nunca mais se acenderão. O senhor, pelo que me consta, é mais velho que eu.

Meu pai dizia que a vida, até os 60, é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.

O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem, florescem e ejaculam suas sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza.

Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra.

Não seria a hora de fazer como os ipês? No Brasil inteiro não há homem mais potente que o senhor: in-seminar palavras e imagens nos ouvidos e nos olhos de todo mundo... Para quê?

O venerável santo Agostinho disse que um povo é um conjunto de pessoas unidas por um mesmo sonho. São os sonhos que fazem um povo. Mas sonhos não moram em argumentos ou razão.

Moram nas imagens e na poesia. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o povo brasileiro sonhar.

Os textos sagrados fazem a promessa de que, com a vinda do Messias, os velhos desandariam a sonhar. Pensei que o senhor, já velho, poderia ser tocado pela promessa messiânica e ter um sonho parecido com o de Abraão, o de ser pai de uma nação.

Mas isso só se o senhor aceitar a vocação de Anjo Engravidante.

Deus me livre, não estou sugerindo que o senhor encha os programas da TV Globo com programas educativos. Programas educativos são inteligentes, belos e inúteis. Somente os que já estão educados se interessam por eles. Quem não é educado, para ser engravidado, tem de ser seduzido.

Anjo Engravidante, para engravidar, tem antes de ser Anjo Sedutor. Os sedutores sabem que a sedução se faz com coisas mínimas. "Sermões e lógicas jamais convencem", dizia Whitman.
"Só se convence fazendo sonhar", dizia Bachelard. Sedução por imagens mínimas, palavras poucas, haicais, aperitivos. Por favor: não mate a fome do povo. Faça o povo ficar faminto. Uma televisão "fome-gerante"...

Assim, se o senhor se transformasse em Anjo Engravidante, poderia ir pingando mínimas sementes nos mínimos intervalos dos programas, imagens daquelas coisas boas e belas, gestos, atitudes, pensamentos que seduziriam as pessoas a ir recriando o Paraíso neste nosso país. Criar fome de Paraíso...

Não seria uma bela maneira de ir se preparando para dizer adeus?

Eu já estou dizendo adeus faz muito. Mas o senhor pode dizer adeus de um jeito que eu não posso: ir voando, batendo as asas cor-de-abóbora com manchas negras de um Anjo Engravidante...



Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA), é professor emérito da Unicamp.

in Folha de São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.

Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/rua01.html

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Josué, Calebe, Batistas


Émile Durkheim, um dos maiores sociólogos do século XIX, foi também responsável por um dos mais belos modelos de educação da história. Escolas gratuitas para todos e ensino obrigatório dos 6 aos 13 anos são duas propostas suas aprovadas em 1882 na França. Também foi a provada uma outra proposta sua: a partir daquele ano ficou proibido formalmente o ensino da religião nas escolas francesas.

O que o Brasil está fazendo?
O Brasil está cumprindo, tardiamente, a lei 9.394/96 da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), no que diz respeito ao ensino religioso em todas as escolas do país. Na prática, o Brasil está voltando onde Durkheim parou ainda que os contextos sejam bem diferentes. Tratando-se de uma Lei Constitucional e levando-se em conta que o Estado é laico (o Estado não interfere na religião) o órgão responsável por regulamentar o que seja ensino religioso é o MEC e não as instituições religiosas, bem diferente da época de Durkheim.

Todas as instituições do chamado ensino fundamental terão que cumprir a lei. E, no caso das escolas públicas, o professor de ensino religioso será admitido como qualquer outro professor da rede, por meio de concurso público. No Rio de Janeiro, já para 2012, as opções são das doutrinas católica, evangélica/protestante, afro-brasileiras, espírita, religiões orientais, judaica e islâmica. (fonte: http://oglobo.globo.com/educacao/escolas-municipais-do-rio-de-janeiro-terao-ensino-religioso-2898624)

O que nós, batistas brasileiros, estamos fazendo?
Há que se ter critérios para definir quem pode ou não pleitear uma vaga de educador religioso na rede pública. Será preciso ter habilitação na doutrina que se pretende ensinar. Os alunos da Faculdade Teológica Umbandista (FTU http://www.ftu.edu.br) ao terminarem o seu curso receberão seus diplomas com a seguinte inscrição: “Bacharel em Teologia” tendo ainda a chancela do MEC. Além disso, a FTU já disponibilizou o curso e pós-graduação em ensino religioso segundo as doutrinas da Umbanda. O mesmo se dá com a graduação em pedagogia e pós-graduação da Faculdade Espírita (UNIBEM http://www.unibem.br), também com a chancela do MEC. Ter a chancela do MEC, pós-graduação, Mestrado e etc., soma mais pontos em termos de concurso público.

Segundo o IBGE o número de matriculados na rede pública é da ordem de 35.000.000 de alunos (http://www.brasil.gov.br/sobre/o-brasil/o-brasil-em-numeros-1/educacao/print).
A grande maioria tem entre 7 e 13 anos. Para os batistas este poderia ser um enorme campo missionário e uma oportunidade de levar o ensino cristão (uma das faces do ensino religioso) a meninos e meninas do nosso Brasil. Ensino cristão dentro da lei e estabilidade de trabalho para o professor.

O que nós, batistas brasileiros, estamos fazendo com as nossas instituições de ensino?
O “poderia” não foi acidental. Temos discutido nos últimos anos se a Teologia deve ou não entrar para a academia (MEC). Outras confissões religiosas não têm a menor dúvida quanto a isso. Aprovamos em 2010 o fim do curso de Pedagogia do Seminário do Sul. O único desta instituição realmente reconhecido pelo MEC até a presente data. Sem sofismas quanto ao verbo fechar porque o texto é muito claro: “Atendimento: Como o referido curso não apresenta sustentabilidade econômico-financeira, foi determinada a não realização de vestibular para o ingresso de novos alunos. A instituição deverá levar até o final do curso os alunos ora matriculados”. (pag. 221 do Livro do Mensageiro da CBB de jan-2011).

O que nós, batistas brasileiros, estamos fazendo com a antiga visão missionária?
Quando os americanos do Sul dos Estados Unidos vieram para o Brasil tinham uma visão missionária muito clara. Mais que plantar igrejas desejavam formar líderes para que o trabalho continuasse. Os professores eram vistos como missionários pela Junta de Richmond. Por isso, sempre que faltava dinheiro nossos irmãos americanos nos socorriam. Eles avisaram com antecedência que chegaria a hora de voltar, afinal, já haviam igrejas suficientes para sustentar o trabalho e professores preparados para continuar o que começaram. Capítulo triste e complexo foi o que aconteceu depois. Contudo, a estratégia que já foi nossa tem sido muito bem usada pelos muçulmanos: a cada mesquita, uma escola. Não é a toa que ela é a religião que mais cresce no mundo.  (http://www.usp.br/revistausp/67/17-pinto.pdf)

O que os outros estão fazendo?
Felizmente outras confissões cristãs estão prontas a aproveitar esta oportunidade única e peculiar brasileira. Os assembleanos, católicos, presbiterianos, entre outros, já têm ou estão por conseguir seus certificados no Ministério da Educação. Algumas destas instituições têm, inclusive, Mestrado e Doutorado o que aumenta a vantagem (mais pontos) na hora do concurso: a chamada titulação.

É! Parece que nós, os batistas brasileiros, estamos indo no revés da história ou na contramão, como se diz. Mas quem sabe não sejamos nós como Josué e Cabele no deserto de Parã, em Cades (Nm 13-14). Talvez o tempo mostre que somos os únicos certos e todos estejam errados. Mas neste caso precisamos rever alguns do nosso arraial que insistem em montar Seminários Teológicos em suas igrejas, inclusive, com certificação do MEC. Mas isso já outra história.

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