sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Socorro! Então estuprando o meu cérebro

Essa foi demais. Não deu nem para fazer uma introdução do assunto. Estou sendo violentado por algo que deveria seu prazer para mim.

Particularmente tenho uma grande alegria em colaborar com missões, conhecer e ouvir histórias de missionários. Mesmo antes do meu chamado para o seminário lembro-me que as únicas datas que sabia de cabeça eram aquelas dedicadas aos congressos missionário da minha igreja.Infelizmente, todo esse afã pelo tema tem-se tornado um verdadeiro “estupro” intelectual diante do que tenho aprendido na academia. O que deveria ser um prazer está se tornando uma tortura e uma violência ao meu raciocínio. Estão tentando engessar o meu cérebro!

O filme A Missão (The Mission, ING 1986) é um excelente filme premiado com a Palma de Ouro em Cannes e Oscar de fotografia. Tem como atores Robert de Niro, Jeremy Irons, Lian Neeson entre outros.

Talvez você esteja se perguntando o que isso tem a ver com o título. É simples. Após assistir o filme, que sinceramente eu não conhecia e o qual recomendo, houve um debate cuja pergunta foi: Então, qual tem sido o nosso modo de fazer missão?

É evidente que o “nosso” não está se referindo aos católicos (os jesuítas), mas aos “homens brancos” e por tabela a nós “homens civilizados”, se considerarmos que é deste modo que olhamos os povos de outras terras como a África, por exemplo.

O que foi grave na pergunta foi à indução do pensamento que tentou manipular os fatos, responsabilizando “Rodrigo Mendoza” (personagem de Robert de Niro), como sendo o vilão responsável pelo massacre dos índios Guaranis. Esta história está relatada nos livros de história é conhecida como "Guerras Guaraníticas” que ocorreram em vários lugares da America Latina. No caso do filme, a cidade em questão, é conhecida, hoje, como São Gabriel (em homenagem ao padre jesuíta morto no confronto) no RS. Confira.

De fato, o ex-mercador pegou em armas para defender àqueles que antes escravizava; de fato, se a missão tem como objetivo levar o amor de Deus, NADA JUSTIFICA pegar em armas; mas daí dizer que “Mendoza” foi o responsável não deu “pra engolir”. Foram os soldados da coroa espanhola que massacraram cruelmente os índios! Existe uma expressão que me parece apropriada nestes casos: “Salto o ELEFANTE e me atraco com a formiga”. Sugiro que você veja o filme e chega as SUAS próprias conclusões. Mas o que vi foi totalmente diferente.

Vi a ganância de homens, que não tinham nada a ver com missões, massacrarem os índios. Vi os poderes políticos controlarem as mentes e as ações de homens gananciosos. Vi um representante do clero (do Papa) invejoso do padre Jesuíta “Gabriel” (Jeremy Irons) ceder aos interesses mesquinhos do poder. Como seria possível que um representante do clero consentisse numa coisas dessas? Só a inveja poderia fazê-lo.

Apesar de todos estes fatos a discussão girou noutra esfera: Qual tem sisdo o nosso modo de fazer missões? A reflexão é válida e MUITO pertinente. Uma pergunta sem a qual não vale a pena sair para fazer missões nem do outro lado da rua (na casa do vizinho), mas auto lá! O filme não trata disso. No máximo deixa uma pergunta quanto à visão do índio. Para ele, sim, no fundo no fundo, não importa se foram os reis de Portugal e Espanha ou se foram os Jesuítas que os atiraram. Eles foram traídos pelos brancos e ponto. E isso é o máximo que se poder dizer quanto ao filme. Que os índios não confiam mais em nós, isso é fato, mas NÃO PORQUE os jesuítas não souberam fazer missões (ou mesmo nós numa projeção deles).  Os jesuítas (no filme) não tem responsabilidade nenhuma no massacre, até porque uma outra missão próxima também foi atacada sem aviso prévio. Todos foram expulsos e as crianças assinadas sem que os índios oferecerem a menor resistência.

Como assim Mendoza foi responsável? Ele nem estava lá. Por acaso o ex-mercenário atirou no padre Gabriel enquanto este celebrava a missa? Foi ele que comandou as tropas do rei de Espanha? Por acaso foi o padre quem determinou que os índios ficassem e lutassem? Ou foi Mendoza? Isso é o que incomoda: “saltar o elefante e se atracar com a formiga”.

É lamentável perceber que aquilo que poderia se tornar um belo debate tenha se tornado algo enfadonho, sem sentido e mais, uma agressão ao pensamento questionador de qualquer estudante de faculdade (facultare=escolher). Entretanto, o pior de tudo é ser uma voz isolada uma vez que a maioria se deixou levar pela “condução” proposta. Por isso, me pergunto: o que nós estamos vendo? o que nós estamos pensamos? como nós estamos pensando? Será que somos realmente autônomos no nosso pensar, justamente nós que nos arvoramos na posse da “verdade”?

O mais curioso é perceber que nós, os cristão, condenemos os missionários jesuítas (do filme), enquanto os não crentes, aqueles que não têm a menor ideia do que seja missão, façam exatamente o contrário criticando os valores espúrios da ganância da inveja e do poder como podemos perceber na sinopse da capa do próprio filme.

Rodrigo Mendoza é um mercador de escravos que faz da violência seu modo de vida. Na disputa pela mulher que amava mata o próprio irmão, seu rival. O remorso pela selvageria leva Mendoza à penitência, com os antes desprezados jesuítas. A paz, no entanto, lhe é negada. Envolvido no jogo político dos colonizadores ele se tornará um mártir na defesa dos Índios que viera para escravizar.
Mas tudo, sempre, tem o seu lado bom. Este “debate” de “ideias” teve sua utilidade. Primeiro, tornouse fonte de inspiração deste este post e você, leitor, tomasse conhecimento de um bom filme e bastante atual para quem gosta do tema: missões. Segundo, para que eu não “surtasse” diante do absurdo de uma “lógica” ilógica que contraria TODAS as sinopses e comentários a respeito do filme, mesmo entre os mais céticos. E finalmente, serviu como inspiração para próximo post onde abordaremos o tema, missões, este sim, do ponto de vista da crueldade dos dominadores que manipulam as missões e os missionários. Pessoas de coração puro dispostas a morrer pela causa. Ou seja, um post em total acordo com a ideia do filme.

Tenho, entretanto, uma última sugestão. Assita o filme (veja o trailer) e esteja à vontade para desconsiderar, descordar e criticar TUDO, absolutamente todo do que leu aqui. Não é meu desejo violentar a sua mente de modo algum. Aqui, você sempre poderá fazer as SUAS escolhas.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Guarda o teu coração ou Do Inferno

Talvez você tenha estranhado a parte final do título o que já explico.


Existe um filme, o qual eu gosto muito, que conta a história de Jack, o estripador, morador da Londres do século XIX. Há certa altura do filme um amigo do personagem (Jack) pergunta-lhe: - De onde veio esta ideia de matar estas mulheres desta maneira? E ele responde: - Do inferno (From Hell). Vem daí o título do filme.

Mas, qual relação com o texto de provérbios 4.23?
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”.
Porque este nos ensina alguns valores que devemos guardar sendo um deles fonte da própria vida, o coração.

Quando percebemos a injustiças e a opressão é comum que lutemos contra elas. Lutar contra a opressão e a injustiça é um sentimento legítimo e até nobre. Sentimento que por vezes pode levar ao outro extremo, a violência. Entretanto, existe um viés ainda mais perigoso que nos abarca o coração manifesto quando dizemos: Quando eu estiver no lugar deles (no poder) vou fazer tudo diferente.

Chamo este sentimento de “a síndrome de Darth Vader”. Anakin Skywalker, o menino pobre, vai se tornando aos poucos um Jedi. Diante o poder que lhe foi dado e tomado pelo intenso desejo de fazer justiça o jovem Jedi é literalmente levado para o lado negro da força.

Do mesmo modo, quando ouço alguém a nos falar “eu acredito que vocês farão muito melhor [que eles]”, meu coração se aquece com este mesmo sentimento e, sem perceber, lá estou eu indo para o lado errado pelo motivo correto. Este é um sentimento legítimo (fazer justiça), mas é preciso ter o cuidado de saber quem a faz. É preciso prudência e muito discernimento espiritual para entender como se faz essa justiça.


Está muito claro que a atitude de quem detém, hoje, o poder, de modo às vezes tirânico, está motivado pelo mesmo desejo de “fazer justiça”.

Ao observarmos que as mesmas críticas do passado se repetem é preciso pergunta-se o por quê. Por que geração após geração as críticas são as mesmas? Por que os mesmos sentimentos que tomaram nossos líderes no passado não são capazes de modificar suas atitudes no presente? Será que nós faremos realmente diferente deles ou seremos também criticados pela próxima geração?

Os fatos são os fatos e uma geração após outra, observamos as mesmas práticas que, hoje, abominamos e nada muda. Mas por quê? Para mim existe um plano muito bem engendrado manter a continuidade deste sistema nocivo.

Primeiro despertam-nos o sentimento mais autêntico no ser humano: o desejo da liberdade e justiça. Depois nos ensinam, os futuros líderes, que seremos os verdadeiros “salvadores da pátria”. E, finalmente, quando estivermos convencidos disso, entregam-nos o poder. E é assim que se perpetuam os erros e os desejos de “fazer justiça”. Este é um plano, literalmente, do inferno.

Por isso o texto de provérbios 4 me parece muito apropriado. Ele ensina a ouvir as palavras do Senhor (v. 10) porque são o caminho da sabedoria (v. 11). “Apega-te à instrução e não a largues; guarda-a, porque ela é a tua vida” (v. 13).

Também aprendemos a evitar o caminho dos ímpios (v. 15) porque comem do pão da impiedade e produzem violência (v. 17). “O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam.” (v. 19).

Porém, de todos estes ensinos um tem prioridade: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração” (v. 23).

Se assim fizermos desviaremos da falsidade e perversidade da nossa boca (v. 24), olharemos sempre para frente (v. 24), ponderaremos nos nossos caminhos de forma ordenada (v. 26) e não nos inclinaremos nem para esquerda nem para direita (v 27).

Disse Jesus: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (Mateus 5.6) e disse também: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.” (Mateus 5.8).

Tudo na vida é consequente e, por mais difíceis que sejam sempre há escolhas. Algumas destas dependem a nossa vida. Se você, assim como eu, deseja fazer tudo diferente então comece agora. De tudo que tem visto e aprendido, sobretudo guarda o teu coração.



Dedicado a um grande amigo que, como eu, não se conforma com a injustiça.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Uns são outros não são

Certa feita ouvi num sermão esta frase de forma irônica como um modo de ilustrar o que seja a unção de Deus. Segundo o sermão aqueles que obedecem ao SENHOR tem a unção Dele. Já os que não O obedecem não tem, daí a frase: “é por isso que ‘unsção’ outros não são”.


Relendo a Palavra no livro de 1 Samuel encontramos dois reis, Saul e Davi. Ambos pecadores, ambos homens ungidos por Deus, mas com destinos completamente diferentes. O primeiro, Saul, tirou a própria vida depois de cometer muitos erros. Já o segundo, Davi, apesar de todos os seus erros, é lembrado até hoje como sendo um homem segundo o coração de Deus. Alguém tão importante que o próprio Jesus é chamado várias vezes de “filho de Davi” nas Escrituras. A pergunta é por quê? Por que essa diferença se Deus ungui a ambos? Por que um deu tão certo enquanto o outro deu tão errado? Seria a unção de Deus melhor ou maior para Davi? Teria Deus ungido Saul de “brincadeirinha”? Afinal, Deus ungui ou não ungiu o rei Saul?

A unção de Saul só pode ser autêntica senão, sou obrigado a pensar que Deus estava brincando com o pobre Saul. Logo, o problema de Saul não está na unção de Deus.

Se por um lado o problema não está na unção, por utro, o problema de Saul ter tido o triste fim que teve não estava (somente) em seus pecados. Se fosse assim, Davi teria o mesmo destino ou pior. Para quem se lembra da história, Davi fez coisas muito piores que Saul. Adulterou (2 Samuel 11.4 ), usou de seu poder de rei para matar seu melhor amigo e encobrir seu pecado (2 Samuel 11.45-17 ), deixou que seus filhos se desentendessem, se violentassem e se matassem (2 Samuel 13.1-30). Por causa dessas coisas Deus não permitiu que Davi construísse o templo. Ele tinha as mãos sujas de sangue (1 Crônicas 28.1-3).

Ora, sendo assim que diferença faz a unção de Deus sobre alguém? Pouca. Salomão sabia disso. Sabia que precisava de um coração puro (quebrantado) como o de seu pai, mas precisava ainda mais. Precisava de sabedoria para poder ser rei e julgar tão grande povo (1 Reis 3.3-10). Não quero invalidar ou diminuir a unção do SENHOR para os homens e mulheres de Deus ao longo da história. Apenas desejo mostrar que a unção não garante santidade a ninguém. Sem entrar na filologia da palavra, o que a Bíblia mostra é o que o salmista já dizia: “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” (Salmos 51.17). Portanto a unção de Deus foi idêntica para ambos, Saul e Davi, mas o coração deles era completamente diferente.

Temos confundido unção com outras palavras e significados que não fazem o menor sentido. Santidade, perfeição, poder especial (no sentido equivocado), sabedoria e dons “especiais” são algumas das ideias que nos passam na mente quando ouvimos a palavra unção.

Ora, Davi não se atreveu a tocar no ungido do Senhor que tentava matá-lo. Por duas vezes teve a oportunidade de tira a vida de Saul, mas não o fez. Não o fez não porque Saul fosse santo, perfeito, ou qualquer uma destes pensamentos que temos quanto à palavra unção. Davi não o fez por obediência e temor a Deus.

Saul foi tão pecador quanto Davi. Logo a diferença não estava na unção, mas na obediência de um coração quebrantado. Ao ser confrontado pelo profeta Natã, Davi se arrepende. Não manda matar o profeta, não se envaidece, não busca outras saídas fáceis, não se rebela contra Deus. Ele simplesmente se arrepende conforme o Salmo 51.

Por um lado cobramos uma santidade e perfeição de nossos líderes (coisa que nenhum deles tem). Quantos têm caído e se arrependido, mas nós os estigmatizamos ou pior, nós simplesmente os crucificamos.

Por outro lado, temos os endeusado a ponto de acharmos que eles nunca erram. Alguns (poucos) têm cometido verdadeiras atrocidades e, no entanto, a igreja “racha”, as mazelas são expostas, o Reino de Deus sofre, o escândalo vem e mesmo assim eles continuam de pé como se estivessem acima do bem e do mal.

Mas por quê? Porque dizemos: “ai daquele que tocar no ungido do Senhor”, como se isso conferisse algum poder especial ao homem que foi consagrado ao ministério. O homem de Deus é o mais obediente e não o que faz a sua própria vontade. É aquele que reconhece seu erro e se arrepende não o que acusa os outros (mais fracos) de hereges ou de filhos do diabo.

Pior do que nós pensarmos que o ungido do Senhor é mais “santo” que todo mundo, é o próprio homem consagrado começar a achar que de fato ele o é realmente. Mas o que há de novo neste pensamento? Nada. Os fariseus pensavam e agiam assim, Lutero agiu assim, o catolicismo é assim (a infalibilidade papal) e por aí vai.

A unção de Deus é coisa séria, e aquele que a recebe prestará contas àquele que a concedeu. Mas não sejamos tolos. O verbo do texto diz “tocar” no sentido de ferir ou tirar a vida. Não diz que não devemos confrontar tal qual tantos profetas o fizeram com tantos reis (muitos pagando com a própria vida). Alguém diria que Isaías era herege ou que Eliseu era filho do diabo?

Unção é coisa séria, é de Deus, é algo especial e precisa ser respeitada. Mas unção não é santidade, perfeição, nem tão pouco algo que faz o homem de Deus alguém sobrenatural acima do juízo ou da Palavra de Deus. E, em se tratando de Palavra, é sempre o SENHOR quem dá a última Palavra, nos dois sentidos.

Blogs que eu acompanho