quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Com os faróis virados para traz ou para frente?


Houve um tempo em que a igreja detinha o conhecimento tanto da ciência quanto de “Deus”. Foi uma época próspera diriam alguns, mas não foi sem dor. Matava-se em “nome de Deus”. As cruzadas por um lado, e o massacre dos anabatistas por outro, são exemplos de um cristianismo que nada tem a ver com o Cristo. “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5.39).

Se era impossível àquela sociedade lutar contra Deus (na figura da igreja) era possível lutar contra o monopólio do conhecimento clerical. No século XIX comprovou-se o quanto e como haviam erros no conhecimento humano segundo as “bases bíblica”. A igreja, finalmente, perdeu o domínio do conhecimento e acabou por perder também poder sobre o destino das pessoas. A ciência desafiava a igreja e avançava de tal forma que não havia mais saída. Ou ela se fechava em seus dogmas ou se expunha ao açoite do conhecimento científico.

Foi nessa época que os corajosos reformados aceitaram o desafio de olhar o futuro de frente, olho no olho. Estes homens (daquele século e naquele contexto) ousaram olhar para frente contudo, tamanha ousadia custou-lhes muito caro. Aqueles crentes de verdade que não fugiram das perguntas, para as quais não tinham resposta, receberam o título de teólogos liberais. Em seu desejo de manter a fé em Jesus Cristo de modo honesto e não dogmático eles tiveram de abrir mão de valores “sagrados”. E esse foi o pecado que cometeram. Porque enquanto a Europa naufragava em guerras e o crescente ateísmo, conceito completamente diferente de teologia liberal, os EUA crescia e prosperava com sua teologia fundamentalista.

Passaram-se os anos e ninguém duvidava que feliz (leia-se próspera) é a nação cujo Deus é o Senhor; bem aos moldes de Deuteronômio 28. No texto, tudo de bom aconteceria se obedecessem ao Senhor. Mulheres e animais férteis, plantação rica e próspera, riquezas e poder sobre os outros povos seriam as “bênçãos de Deus” para o seu povo (leia-se Judeus). Se não, tudo de mal lhes sobreviria. Maldições, pestilências, escravidão e infertilidade; castigos pela desobediência ao Senhor. E Europa e seus teólogos? Só sobrou Karl Barth e com reservas.

Mas o tempo passa e as coisas mudam como também mudaram para os hebreus. Hoje, qualquer criança tem acesso à informação que anteriormente levávamos dias para encontrar. A pergunta deste tempo é: até quando nós vamos ignorar este fato? Alguém imagina que ler a revista na EBD ensina a alguém sobre os valores de Deus? Que seja! Se aula for ótima, isso isenta o seu filho ou filha de receber informação totalmente contrária na escola? Um domingo vale mais que os cinco dias na escola? Uma hora vale mais que as vinte na sala de aula? Isso sem falar na televisão, Internet etc. Agora que os EUA estão em crise. Eles que responder as mesmas perguntas que os europeus no passado. “Onde está o Deus da prosperidade”, o Deus da barganha que  “abençoa”  quem lhe “é fiel” e pune quem “não é”? Será que Deus é só isso?

Por acaso aqueles que detêm títulos espirituais de conservadores, fundamentalistas e etc., teriam lido Crer é também pensar de John Stott? Este é nosso tempo e aqui no nosso Brasil. Estamos vivendo sob dois estigmas: A teologia fundamentalista e a teologia liberal cujos sentidos já mudaram muito desde o século passado. Fundamentalista, hoje, é quem crê em Deus e é portanto, autenticamente "espiritual". Enquanto liberal, hoje, é quem não crê em Deus e relativiza tudo que se refere a Deus. Duas grandes tolices dividindo a teologia. Parece que temos sempre estar de um dos dois lados. Calvinistas versus Arminianos, Católicos versus Reformados, Fundamentalistas versus Liberais e assim por diante.

O problema é que nosso carro está com os faróis virados para traz. Nosso discurso não funciona mais; as pessoas não entende o que estamos dizendo. Conquanto, o Espírito Santo ainda age maneira sobrenatural. Ele continua a transformar o homem apesar do discurso ser, como disse, nosso. Com os faróis  virados para traz só podemos ver os buracos que evitamos ou caímos depois passarmos por eles. Jamais saberemos para onde vamos ou que vem pela frente.

Não é por outra razão que a teologia da troca de Deuteronômio 28 travestida de Teologia da Prosperidade cresça cada vez mais. Ela responde as perguntas que as pessoas estão fazendo. Ela busca atender o anseio e necessidades mais simples de um povo igualmente simples. E mais, ela tem mais chance de reconquistar a Europa do que as teologias chamadas liberais ou tradicionais.

Uma nota se faz necessária aqui. Não negocio valores como a cruz de Cristo, sua ressurreição e sua filiação a Deus, o Pai. Não ignoro ou menosprezo o Espírito Santo que convenceu, antes de tudo, a mim da justiça do pecado e do juízo. Também não defendo a teologia da troca como saída para esse nosso século. Falo da nossa ignorância quanto ao mundo e sociedade em que vivemos. Ignoramos os valores deste século como se nada houvesse de bom no mundo ou no homem. Se o mundo jaz no maligno é por nossa causa: “maldita será a terra por causa de ti” (Gênesis 3.17) e não que mundo seja mal em si. Ele tornou-se mal por causa do pecado, mas lá no princípio viu Deus que o mundo era bom. Se o coração do homem é mau continuamente, lembro que Deus amou o mundo de tal maneira que entregou o seu único filho por amor a este mesmo homem de coração mau.

Minha “crise” é perceber que ainda agimos como meninos que precisam de leite, ainda que não falsificado. Não amadurecemos assim como não crescemos a estatura do varão perfeito que é Cristo. Se como líderes vamos levar a sério a Bíblia então precisamos responder ao menos a duas perguntas: 1-  O que significa “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento” de I Coríntios 14.20? 2 - Qual o sentido do texto “E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens” de Lucas 2.52?

Para quem está terminando a caminhada estas perguntas causam mais dor que alegria. Para quem está apenas começando é bom pensar que a dor é ou será inevitável. Melhor procurar respostas o quanto antes se o desejo é permanecer no ministério. Ou então deixe-se seduzir pelo mais fácil como tantos têm feito e renda-se a teologia da prosperidade. O mundo está cheio de perguntas e espera que alguém as responda. Por um lado, as antigas repostas não servem mais por outro, responder perguntas que ninguém fez também fazem o menor sentido.

Que o Senhor nos ajude!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entre a Ciência e a Sapiência

Caro sr. Roberto Marinho...
Por Rubem Alves

São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.

Sonhos fazem um povo. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o brasileiro sonhar.
Meu pensamento, de tanto ler os poetas e interpretar sonhos, acabou por adquirir prazer especial em associações insólitas. E foi assim que aconteceu: a visão de um anjo me fez pensar no senhor.

Explico-me.

Perturbado pelas orgias natalinas, tratei de proteger-me contra a loucura ouvindo música sacra e revendo as obras de arte referentes ao nascimento do Menino Deus. Meus olhos se detiveram na tela "Anunciação", de Fillipo Lippi: o Anjo, ajoelhado, de perfil, lindo rosto juvenil, asas cor-de-abóbora com manchas negras, mansamente diante da Virgem Bendita, assentada, olhos castamente voltados para o chão, as Sagradas Escrituras na mão esquerda, enquanto um Pássaro, pomba, aproxima-se dela em vôo, asas abertas, e está prestes a pousar no seu colo.

O Anjo trouxera o Pássaro. O Pássaro era a semente engravidante. E, como é bem sabido, nos poemas sagrados o Pássaro é o Espírito. Maria foi engravidada pelo Pássaro Divino.

Uma tradição teológica antiquíssima reza que Maria permaneceu ginecologicamente virgem porque foi pelo seu ouvido que o Pássaro entrou. Acredito: muitas gravidezes acontecem através do ouvido.
Ora, o que entra no ouvido é a palavra: o Pássaro Divino cantou um canto tão lindo que a Virgem ficou grávida e dela nasceu o Filho de Deus.

Hoje muito se fala sobre anjos e suas funções. Mas nunca ouvi ninguém se referir aos importantíssimos Anjos Engravidantes, os mesmos que fizeram Sara ficar grávida depois de velha. Assim, pela mediação de um Anjo Engravidante, Deus Todo-Poderoso empreendeu trazer o Paraíso de novo à Terra.

Foi então que o meu pensamento deu uma cambalhota. Pensou que, se fosse hoje, as coisas teriam acontecido de forma diversa: a Virgem, em vez de ter o livro sagrado na mão esquerda, estaria ligada a algum canal de televisão.

Anjos e televisões se parecem em virtude de sua limitada capacidade virtual: dentro dos dois moram e voam pombas sem número. E seria do vídeo que a Pomba divina estaria saindo e voando, não só para o ouvido como também para os olhos da Virgem. Por meio da televisão, a Imaculada Conceição.
Anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns.

Veio-me, então, a idéia de que, talvez, o senhor pudesse ser um deles. O Anjo engravidou uma virgem pela palavra. A TV engravida por palavra e imagem. O senhor, dono da Globo, é muito mais potente que qualquer anjo. Anjos engravidam no varejo. O senhor pode engravidar no atacado. Já imaginou?

Engravidar uma nação inteira?
Eu não tenho 63 anos: 63 paus de fósforo que nunca mais se acenderão. O senhor, pelo que me consta, é mais velho que eu.

Meu pai dizia que a vida, até os 60, é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.

O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem, florescem e ejaculam suas sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza.

Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra.

Não seria a hora de fazer como os ipês? No Brasil inteiro não há homem mais potente que o senhor: in-seminar palavras e imagens nos ouvidos e nos olhos de todo mundo... Para quê?

O venerável santo Agostinho disse que um povo é um conjunto de pessoas unidas por um mesmo sonho. São os sonhos que fazem um povo. Mas sonhos não moram em argumentos ou razão.

Moram nas imagens e na poesia. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o povo brasileiro sonhar.

Os textos sagrados fazem a promessa de que, com a vinda do Messias, os velhos desandariam a sonhar. Pensei que o senhor, já velho, poderia ser tocado pela promessa messiânica e ter um sonho parecido com o de Abraão, o de ser pai de uma nação.

Mas isso só se o senhor aceitar a vocação de Anjo Engravidante.

Deus me livre, não estou sugerindo que o senhor encha os programas da TV Globo com programas educativos. Programas educativos são inteligentes, belos e inúteis. Somente os que já estão educados se interessam por eles. Quem não é educado, para ser engravidado, tem de ser seduzido.

Anjo Engravidante, para engravidar, tem antes de ser Anjo Sedutor. Os sedutores sabem que a sedução se faz com coisas mínimas. "Sermões e lógicas jamais convencem", dizia Whitman.
"Só se convence fazendo sonhar", dizia Bachelard. Sedução por imagens mínimas, palavras poucas, haicais, aperitivos. Por favor: não mate a fome do povo. Faça o povo ficar faminto. Uma televisão "fome-gerante"...

Assim, se o senhor se transformasse em Anjo Engravidante, poderia ir pingando mínimas sementes nos mínimos intervalos dos programas, imagens daquelas coisas boas e belas, gestos, atitudes, pensamentos que seduziriam as pessoas a ir recriando o Paraíso neste nosso país. Criar fome de Paraíso...

Não seria uma bela maneira de ir se preparando para dizer adeus?

Eu já estou dizendo adeus faz muito. Mas o senhor pode dizer adeus de um jeito que eu não posso: ir voando, batendo as asas cor-de-abóbora com manchas negras de um Anjo Engravidante...



Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA), é professor emérito da Unicamp.

in Folha de São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.

Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/rua01.html

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Josué, Calebe, Batistas


Émile Durkheim, um dos maiores sociólogos do século XIX, foi também responsável por um dos mais belos modelos de educação da história. Escolas gratuitas para todos e ensino obrigatório dos 6 aos 13 anos são duas propostas suas aprovadas em 1882 na França. Também foi a provada uma outra proposta sua: a partir daquele ano ficou proibido formalmente o ensino da religião nas escolas francesas.

O que o Brasil está fazendo?
O Brasil está cumprindo, tardiamente, a lei 9.394/96 da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), no que diz respeito ao ensino religioso em todas as escolas do país. Na prática, o Brasil está voltando onde Durkheim parou ainda que os contextos sejam bem diferentes. Tratando-se de uma Lei Constitucional e levando-se em conta que o Estado é laico (o Estado não interfere na religião) o órgão responsável por regulamentar o que seja ensino religioso é o MEC e não as instituições religiosas, bem diferente da época de Durkheim.

Todas as instituições do chamado ensino fundamental terão que cumprir a lei. E, no caso das escolas públicas, o professor de ensino religioso será admitido como qualquer outro professor da rede, por meio de concurso público. No Rio de Janeiro, já para 2012, as opções são das doutrinas católica, evangélica/protestante, afro-brasileiras, espírita, religiões orientais, judaica e islâmica. (fonte: http://oglobo.globo.com/educacao/escolas-municipais-do-rio-de-janeiro-terao-ensino-religioso-2898624)

O que nós, batistas brasileiros, estamos fazendo?
Há que se ter critérios para definir quem pode ou não pleitear uma vaga de educador religioso na rede pública. Será preciso ter habilitação na doutrina que se pretende ensinar. Os alunos da Faculdade Teológica Umbandista (FTU http://www.ftu.edu.br) ao terminarem o seu curso receberão seus diplomas com a seguinte inscrição: “Bacharel em Teologia” tendo ainda a chancela do MEC. Além disso, a FTU já disponibilizou o curso e pós-graduação em ensino religioso segundo as doutrinas da Umbanda. O mesmo se dá com a graduação em pedagogia e pós-graduação da Faculdade Espírita (UNIBEM http://www.unibem.br), também com a chancela do MEC. Ter a chancela do MEC, pós-graduação, Mestrado e etc., soma mais pontos em termos de concurso público.

Segundo o IBGE o número de matriculados na rede pública é da ordem de 35.000.000 de alunos (http://www.brasil.gov.br/sobre/o-brasil/o-brasil-em-numeros-1/educacao/print).
A grande maioria tem entre 7 e 13 anos. Para os batistas este poderia ser um enorme campo missionário e uma oportunidade de levar o ensino cristão (uma das faces do ensino religioso) a meninos e meninas do nosso Brasil. Ensino cristão dentro da lei e estabilidade de trabalho para o professor.

O que nós, batistas brasileiros, estamos fazendo com as nossas instituições de ensino?
O “poderia” não foi acidental. Temos discutido nos últimos anos se a Teologia deve ou não entrar para a academia (MEC). Outras confissões religiosas não têm a menor dúvida quanto a isso. Aprovamos em 2010 o fim do curso de Pedagogia do Seminário do Sul. O único desta instituição realmente reconhecido pelo MEC até a presente data. Sem sofismas quanto ao verbo fechar porque o texto é muito claro: “Atendimento: Como o referido curso não apresenta sustentabilidade econômico-financeira, foi determinada a não realização de vestibular para o ingresso de novos alunos. A instituição deverá levar até o final do curso os alunos ora matriculados”. (pag. 221 do Livro do Mensageiro da CBB de jan-2011).

O que nós, batistas brasileiros, estamos fazendo com a antiga visão missionária?
Quando os americanos do Sul dos Estados Unidos vieram para o Brasil tinham uma visão missionária muito clara. Mais que plantar igrejas desejavam formar líderes para que o trabalho continuasse. Os professores eram vistos como missionários pela Junta de Richmond. Por isso, sempre que faltava dinheiro nossos irmãos americanos nos socorriam. Eles avisaram com antecedência que chegaria a hora de voltar, afinal, já haviam igrejas suficientes para sustentar o trabalho e professores preparados para continuar o que começaram. Capítulo triste e complexo foi o que aconteceu depois. Contudo, a estratégia que já foi nossa tem sido muito bem usada pelos muçulmanos: a cada mesquita, uma escola. Não é a toa que ela é a religião que mais cresce no mundo.  (http://www.usp.br/revistausp/67/17-pinto.pdf)

O que os outros estão fazendo?
Felizmente outras confissões cristãs estão prontas a aproveitar esta oportunidade única e peculiar brasileira. Os assembleanos, católicos, presbiterianos, entre outros, já têm ou estão por conseguir seus certificados no Ministério da Educação. Algumas destas instituições têm, inclusive, Mestrado e Doutorado o que aumenta a vantagem (mais pontos) na hora do concurso: a chamada titulação.

É! Parece que nós, os batistas brasileiros, estamos indo no revés da história ou na contramão, como se diz. Mas quem sabe não sejamos nós como Josué e Cabele no deserto de Parã, em Cades (Nm 13-14). Talvez o tempo mostre que somos os únicos certos e todos estejam errados. Mas neste caso precisamos rever alguns do nosso arraial que insistem em montar Seminários Teológicos em suas igrejas, inclusive, com certificação do MEC. Mas isso já outra história.

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