sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Uns são outros não são

Certa feita ouvi num sermão esta frase de forma irônica como um modo de ilustrar o que seja a unção de Deus. Segundo o sermão aqueles que obedecem ao SENHOR tem a unção Dele. Já os que não O obedecem não tem, daí a frase: “é por isso que ‘unsção’ outros não são”.


Relendo a Palavra no livro de 1 Samuel encontramos dois reis, Saul e Davi. Ambos pecadores, ambos homens ungidos por Deus, mas com destinos completamente diferentes. O primeiro, Saul, tirou a própria vida depois de cometer muitos erros. Já o segundo, Davi, apesar de todos os seus erros, é lembrado até hoje como sendo um homem segundo o coração de Deus. Alguém tão importante que o próprio Jesus é chamado várias vezes de “filho de Davi” nas Escrituras. A pergunta é por quê? Por que essa diferença se Deus ungui a ambos? Por que um deu tão certo enquanto o outro deu tão errado? Seria a unção de Deus melhor ou maior para Davi? Teria Deus ungido Saul de “brincadeirinha”? Afinal, Deus ungui ou não ungiu o rei Saul?

A unção de Saul só pode ser autêntica senão, sou obrigado a pensar que Deus estava brincando com o pobre Saul. Logo, o problema de Saul não está na unção de Deus.

Se por um lado o problema não está na unção, por utro, o problema de Saul ter tido o triste fim que teve não estava (somente) em seus pecados. Se fosse assim, Davi teria o mesmo destino ou pior. Para quem se lembra da história, Davi fez coisas muito piores que Saul. Adulterou (2 Samuel 11.4 ), usou de seu poder de rei para matar seu melhor amigo e encobrir seu pecado (2 Samuel 11.45-17 ), deixou que seus filhos se desentendessem, se violentassem e se matassem (2 Samuel 13.1-30). Por causa dessas coisas Deus não permitiu que Davi construísse o templo. Ele tinha as mãos sujas de sangue (1 Crônicas 28.1-3).

Ora, sendo assim que diferença faz a unção de Deus sobre alguém? Pouca. Salomão sabia disso. Sabia que precisava de um coração puro (quebrantado) como o de seu pai, mas precisava ainda mais. Precisava de sabedoria para poder ser rei e julgar tão grande povo (1 Reis 3.3-10). Não quero invalidar ou diminuir a unção do SENHOR para os homens e mulheres de Deus ao longo da história. Apenas desejo mostrar que a unção não garante santidade a ninguém. Sem entrar na filologia da palavra, o que a Bíblia mostra é o que o salmista já dizia: “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” (Salmos 51.17). Portanto a unção de Deus foi idêntica para ambos, Saul e Davi, mas o coração deles era completamente diferente.

Temos confundido unção com outras palavras e significados que não fazem o menor sentido. Santidade, perfeição, poder especial (no sentido equivocado), sabedoria e dons “especiais” são algumas das ideias que nos passam na mente quando ouvimos a palavra unção.

Ora, Davi não se atreveu a tocar no ungido do Senhor que tentava matá-lo. Por duas vezes teve a oportunidade de tira a vida de Saul, mas não o fez. Não o fez não porque Saul fosse santo, perfeito, ou qualquer uma destes pensamentos que temos quanto à palavra unção. Davi não o fez por obediência e temor a Deus.

Saul foi tão pecador quanto Davi. Logo a diferença não estava na unção, mas na obediência de um coração quebrantado. Ao ser confrontado pelo profeta Natã, Davi se arrepende. Não manda matar o profeta, não se envaidece, não busca outras saídas fáceis, não se rebela contra Deus. Ele simplesmente se arrepende conforme o Salmo 51.

Por um lado cobramos uma santidade e perfeição de nossos líderes (coisa que nenhum deles tem). Quantos têm caído e se arrependido, mas nós os estigmatizamos ou pior, nós simplesmente os crucificamos.

Por outro lado, temos os endeusado a ponto de acharmos que eles nunca erram. Alguns (poucos) têm cometido verdadeiras atrocidades e, no entanto, a igreja “racha”, as mazelas são expostas, o Reino de Deus sofre, o escândalo vem e mesmo assim eles continuam de pé como se estivessem acima do bem e do mal.

Mas por quê? Porque dizemos: “ai daquele que tocar no ungido do Senhor”, como se isso conferisse algum poder especial ao homem que foi consagrado ao ministério. O homem de Deus é o mais obediente e não o que faz a sua própria vontade. É aquele que reconhece seu erro e se arrepende não o que acusa os outros (mais fracos) de hereges ou de filhos do diabo.

Pior do que nós pensarmos que o ungido do Senhor é mais “santo” que todo mundo, é o próprio homem consagrado começar a achar que de fato ele o é realmente. Mas o que há de novo neste pensamento? Nada. Os fariseus pensavam e agiam assim, Lutero agiu assim, o catolicismo é assim (a infalibilidade papal) e por aí vai.

A unção de Deus é coisa séria, e aquele que a recebe prestará contas àquele que a concedeu. Mas não sejamos tolos. O verbo do texto diz “tocar” no sentido de ferir ou tirar a vida. Não diz que não devemos confrontar tal qual tantos profetas o fizeram com tantos reis (muitos pagando com a própria vida). Alguém diria que Isaías era herege ou que Eliseu era filho do diabo?

Unção é coisa séria, é de Deus, é algo especial e precisa ser respeitada. Mas unção não é santidade, perfeição, nem tão pouco algo que faz o homem de Deus alguém sobrenatural acima do juízo ou da Palavra de Deus. E, em se tratando de Palavra, é sempre o SENHOR quem dá a última Palavra, nos dois sentidos.

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